segunda-feira, 2 de novembro de 2026

VEM AÍ O 10º CÍRCULO NATALENSE DO CORDEL!

De 11 a 15 de novembro de 2026
Natal/RN

Natal será palco de uma grande celebração da literatura cordeliana, reunindo poetas, escritores, cantadores, músicos, xilógrafos, pesquisadores, estudantes e amantes da poesia de todo o Brasil.

Serão cinco dias de encontros, arte e resistência, com uma programação que celebra a força da palavra e a riqueza da nossa memória cultural.

O QUE VEM POR AÍ?

Cordel na educação
Oficinas de xilogravura com Josafá de Orós, Nireuda Longobardi e Adélia Costa
Música, poesia e forró na praça
Lançamentos de livros
Caminhada histórica pelo Centro de Natal
Rodas de conversa, debates e tribunas poéticas
Apresentações artísticas, cortejos culturais, oficinas e feira de livros
Encontros com grandes nomes da literatura, da arte e da cultura brasileira

O 10º Círculo Natalense do Cordel é uma construção coletiva, movida pela arte independente e pelo compromisso com a memória, a literatura e a cultura do nosso povo.

Mais que um evento, é a celebração de uma arte que atravessa gerações, ocupa espaços, preserva histórias e transforma palavras em identidade e resistência.

Venha fazer parte dessa roda de poesia, encontro e resistência!


Realização com apoio do Edital de Fomento ao Livro, Leitura e Literatura nº 10/2026 — Categoria 1.3: Festivais, Feiras e Mostras Literárias, da Lei Aldir Blanc, por meio da Fundação José Augusto.

10º CÍRCULO NATALENSE DO CORDEL
O cordel ocupa a praça, a escola e a memória.

FAÇA SUA INSCRIÇÃO!
https://forms.gle/Pdfr4WDCXgC8R5uG8

#10CirculoNatalenseDoCordel #Cordel #CulturaPopular #LiteraturaDeCordel #NatalRN #ArteIndependente #Xilogravura #PoesiaNordestina

 

domingo, 1 de novembro de 2026

Nota Sobre o Cordel

Ponto de Memória Estação do Cordel

O voto é chave de ouro: quando a poesia se fez instrumento de resistência

Há cinquenta anos, em outubro de 1976, em plena ditadura militar-civil e empresarial, a poesia cordeliana encontrou um caminho para falar de democracia, consciência política e liberdade. O Serviço de Assistência Rural (SAR), da Arquidiocese de Natal, promoveu um concurso de cordel cujo tema era o valor do voto.

A dimensão dessa iniciativa merece ser destacada: o concurso reuniu 150 participantes, que apresentaram seus poemas de cordel. Entre eles, havia 83 agricultores, operários e professores, demonstrando que a discussão sobre o voto e a participação política ultrapassava os círculos intelectuais e alcançava trabalhadores de diferentes segmentos sociais. A poesia tornava-se, assim, um instrumento de expressão, conscientização e participação de povo.

O registro publicado no jornal O Poti, em 24 de outubro de 1976, guarda uma memória importante da resistência cultural no Rio Grande do Norte. Naquele período, quando o país vivia sob um regime autoritário, a arte também se transformava em instrumento de contestação. A poesia, que tantas vezes nasce da experiência e da sabedoria popular, assumia ali uma tarefa política: despertar consciências.

O concurso premiou dois trabalhos: o de Sebastiana Arcelino, conhecida como Bastinha, de Sítio Novo, com o cordel “O voto é chave de ouro”; e o do poeta Crispiano Neto, natural de Santo Antônio do Salto da Onça, com “O voto nem se vende nem se troca”.

Mais do que uma competição literária, aquela iniciativa representava uma forma de desobediência civil e de afirmação da resistência. Afinal, o Brasil vivia sob uma ditadura: não havia eleição direta para presidente da República nem para governador dos estados e prefeitos das capitais. A escolha dos representantes acontecia sob as regras e os controles impostos pelo regime.

Em 1974, as urnas já haviam dado sinais de insatisfação com a ditadura. No Rio Grande do Norte, o MDB conquistou três das oito cadeiras para a Câmara Federal e nove das 24 vagas da Assembleia Legislativa. Embora a ARENA tenha mantido a maioria, o resultado demonstrava o crescimento da oposição consentida e expressava uma mudança importante no sentimento de parte do eleitorado.

O SAR, ligado a um setor progressista da Igreja Católica, soube perceber aquele momento histórico. Ao propor um concurso sobre o valor do voto, abriu espaço para que poetas discutissem a política, a liberdade de escolha e a responsabilidade do eleitor. Em tempos de censura e restrições democráticas, falar de consciência eleitoral também era uma maneira de questionar a ordem estabelecida.

E os versos premiados não deixavam dúvidas sobre o recado.

Bastinha, em “O voto é chave de ouro”, colocava a honestidade e o compromisso com a comunidade acima dos interesses particulares:

O candidato honesto
Que tem mais capacidade
É aquele que enxerga
O bem da comunidade
Procura servir o povo
Na maior necessidade.

Em outra passagem, a poeta denunciava a troca de favores e a submissão política:

Vamos prestar atenção
Qual o maior merecedor
Para não sair dizendo
Aquele eu devo favor
O eleitor que faz isso
Está sendo um traidor.

E aprofundava a crítica à dependência criada pelas dádivas dos políticos:

Quanto mais se receber
Coisas que o político dão
Fica-se escravizado
No tempo de eleição
Quando devemos fazer
Toda nossa obrigação.

Crispiiano Neto, em “O voto nem se vende nem se troca”, por sua vez, fazia da consciência um princípio inegociável:

Consciência não se vende
E ninguém deve comprar
Pois não é mercadoria
Pra gente negociar
É votando consciente
Que se diz participar.

E reconhecia na política um instrumento de organização coletiva:

A política é importante
Você deve imaginar
Pois esse é único meio
Da gente se organizar
Para escolher responsáveis
Que saiba nos ajudar.

Os dois trabalhos receberam como prêmio a publicação de seus cordéis e a quantia de Cr$ 500,00 para cada autor. A moeda da época era o cruzeiro.

O mais significativo é perceber como aquelas mensagens atravessaram o tempo. Cinquenta anos depois, continuamos diante de uma questão fundamental: que valor tem o voto quando a consciência é submetida aos interesses econômicos, às promessas fáceis, ao clientelismo e às desigualdades que atravessam as disputas eleitorais?

É evidente que não estamos mais sob uma ditadura militar. Conquistamos liberdades democráticas importantes, mas isso não significa que a disputa política tenha alcançado plena igualdade de condições. Ainda convivemos com profundas desigualdades de acesso aos meios de comunicação, ao financiamento e aos espaços de participação política. As liberdades democráticas precisam ser defendidas e ampliadas permanentemente.

Por isso, reencontrar esses cordéis é também reencontrar uma parte da nossa história. Bastinha e Crispiano Neto, cada um com sua linguagem e sensibilidade, transformaram a poesia em palavra de conscientização. E os outros 148 participantes também integram essa memória coletiva, que revela a dimensão popular e social daquela experiência.

Seus versos não ficaram presos ao tempo em que foram escritos: continuam dialogando com o presente.

Afinal, o voto não é mercadoria, não é favor, não é dívida. É direito, consciência e luta.

A poesia também fez resistência! E essa memória merece ser conhecida, preservada e compartilhada.

 

Referências e fontes documentais:

 

1. Fonte jornalística histórica

O POTI. Natal, 24 de outubro de 1976. Registro jornalístico sobre o concurso de literatura de cordel promovido pelo Serviço de Assistência Rural (SAR), da Arquidiocese de Natal;

2. Acervo digital da Fundação Casa de Rui Barbosa

FUNDAÇÃO CASA DE RUI BARBOSA. Repositório Rui Barbosa de Informações Culturais (RUBI). Registro documental disponível em:

[https://rubi.casaruibarbosa.gov.br/handle/20.500.11997/14092](https://rubi.casaruibarbosa.gov.br/handle/20.500.11997/14092)