Ponto de Memória Estação do
Cordel
O voto é chave de ouro: quando a
poesia se fez instrumento de resistência
Há cinquenta anos, em outubro de 1976, em plena
ditadura militar-civil e empresarial, a poesia cordeliana encontrou um caminho
para falar de democracia, consciência política e liberdade. O Serviço de
Assistência Rural (SAR), da Arquidiocese de Natal, promoveu um concurso de
cordel cujo tema era o valor do voto.
A dimensão dessa iniciativa
merece ser destacada: o concurso reuniu 150 participantes, que apresentaram
seus poemas de cordel. Entre eles, havia 83 agricultores, operários e
professores, demonstrando que a discussão sobre o voto e a participação
política ultrapassava os círculos intelectuais e alcançava trabalhadores de
diferentes segmentos sociais. A poesia tornava-se, assim, um instrumento de
expressão, conscientização e participação de povo.
O registro publicado no jornal O Poti, em 24 de
outubro de 1976, guarda uma memória importante da resistência cultural no Rio
Grande do Norte. Naquele período, quando o país vivia sob um regime
autoritário, a arte também se transformava em instrumento de contestação. A
poesia, que tantas vezes nasce da experiência e da sabedoria popular, assumia
ali uma tarefa política: despertar consciências.
O concurso premiou dois
trabalhos: o de Sebastiana Arcelino, conhecida como Bastinha, de Sítio Novo,
com o cordel “O voto é chave de ouro”; e o do poeta Crispiano Neto, natural de
Santo Antônio do Salto da Onça, com “O voto nem se vende nem se troca”.
Mais do que uma competição literária, aquela
iniciativa representava uma forma de desobediência civil e de afirmação da resistência.
Afinal, o Brasil vivia sob uma ditadura: não havia eleição direta para
presidente da República nem para governador dos estados e prefeitos das
capitais. A escolha dos representantes acontecia sob as regras e os controles
impostos pelo regime.
Em 1974, as urnas já haviam
dado sinais de insatisfação com a ditadura. No Rio Grande do Norte, o MDB
conquistou três das oito cadeiras para a Câmara Federal e nove das 24 vagas da
Assembleia Legislativa. Embora a ARENA tenha mantido a maioria, o resultado
demonstrava o crescimento da oposição consentida e expressava uma mudança
importante no sentimento de parte do eleitorado.
O SAR, ligado a um setor progressista da Igreja
Católica, soube perceber aquele momento histórico. Ao propor um concurso sobre
o valor do voto, abriu espaço para que poetas discutissem a política, a
liberdade de escolha e a responsabilidade do eleitor. Em tempos de censura e
restrições democráticas, falar de consciência eleitoral também era uma maneira
de questionar a ordem estabelecida.
E os versos premiados não deixavam dúvidas sobre o
recado.
Bastinha, em “O voto é chave de ouro”, colocava a
honestidade e o compromisso com a comunidade acima dos interesses particulares:
O
candidato honesto
Que tem mais capacidade
É aquele que enxerga
O bem da comunidade
Procura servir o povo
Na maior necessidade.
Em outra
passagem, a poeta denunciava a troca de favores e a submissão política:
Vamos
prestar atenção
Qual o maior merecedor
Para não sair dizendo
Aquele eu devo favor
O eleitor que faz isso
Está sendo um traidor.
E
aprofundava a crítica à dependência criada pelas dádivas dos políticos:
Quanto
mais se receber
Coisas que o político dão
Fica-se escravizado
No tempo de eleição
Quando devemos fazer
Toda nossa obrigação.
Crispiiano
Neto, em “O voto nem se vende nem se troca”, por sua vez, fazia da consciência
um princípio inegociável:
Consciência
não se vende
E ninguém deve comprar
Pois não é mercadoria
Pra gente negociar
É votando consciente
Que se diz participar.
E reconhecia
na política um instrumento de organização coletiva:
A
política é importante
Você deve imaginar
Pois esse é único meio
Da gente se organizar
Para escolher responsáveis
Que saiba nos ajudar.
Os dois trabalhos receberam como prêmio a
publicação de seus cordéis e a quantia de Cr$ 500,00 para cada autor. A moeda
da época era o cruzeiro.
O mais significativo é perceber como aquelas
mensagens atravessaram o tempo. Cinquenta anos depois, continuamos diante de
uma questão fundamental: que valor tem o voto quando a consciência é submetida
aos interesses econômicos, às promessas fáceis, ao clientelismo e às
desigualdades que atravessam as disputas eleitorais?
É evidente que não estamos mais sob uma ditadura
militar. Conquistamos liberdades democráticas importantes, mas isso não
significa que a disputa política tenha alcançado plena igualdade de condições.
Ainda convivemos com profundas desigualdades de acesso aos meios de
comunicação, ao financiamento e aos espaços de participação política. As
liberdades democráticas precisam ser defendidas e ampliadas permanentemente.
Por isso, reencontrar esses cordéis é também
reencontrar uma parte da nossa história. Bastinha e Crispiano Neto, cada um com
sua linguagem e sensibilidade, transformaram a poesia em palavra de
conscientização. E os outros 148 participantes também integram essa memória
coletiva, que revela a dimensão popular e social daquela experiência.
Seus versos não ficaram presos
ao tempo em que foram escritos: continuam dialogando com o presente.
Afinal, o voto não é
mercadoria, não é favor, não é dívida. É direito, consciência e luta.
A poesia também fez
resistência! E essa memória merece ser conhecida, preservada e compartilhada.
Referências
e fontes documentais:
1. Fonte jornalística
histórica
O POTI. Natal, 24 de outubro
de 1976. Registro jornalístico sobre o concurso de literatura de cordel
promovido pelo Serviço de Assistência Rural (SAR), da Arquidiocese de Natal;
2. Acervo digital da Fundação
Casa de Rui Barbosa
FUNDAÇÃO CASA DE RUI BARBOSA.
Repositório Rui Barbosa de Informações Culturais (RUBI). Registro documental
disponível em:
[https://rubi.casaruibarbosa.gov.br/handle/20.500.11997/14092](https://rubi.casaruibarbosa.gov.br/handle/20.500.11997/14092)