segunda-feira, 7 de setembro de 2026

CARTA DE REIVINDICAÇÕES DOS ARTISTAS E TRABALHADORES DA CULTURA DO RIO GRANDE DO NORTE ÀS CANDIDATURAS AO GOVERNO DO ESTADO

PELA CULTURA COMO DIREITO, TRABALHO, MEMÓRIA E POLÍTICA PÚBLICA

O Rio Grande do Norte possui uma riqueza cultural construída pela contribuição dos povos originários, das populações negras, das comunidades tradicionais e dos trabalhadores e trabalhadoras que, ao longo das gerações, criaram, preservaram e reinventaram formas de expressão, saberes e práticas culturais.

São mestres e mestras da cultura popular, artistas, poetas, cordelistas, repentistas, cantadores, grupos de teatro, dança e música, brincantes, bonequeiros, artesãos, produtores, técnicos, pesquisadores, coletivos culturais, pontos de cultura e tantos outros sujeitos que mantêm viva uma produção cultural diversa em todas as regiões do Estado.

Apesar dessa riqueza, as políticas públicas de cultura ainda não respondem plenamente às demandas do movimento cultural potiguar. Persistem lacunas no financiamento, na continuidade das ações, na manutenção dos equipamentos culturais, na preservação do patrimônio, no apoio aos mestres e mestras, nos mecanismos de descentralização dos recursos e na garantia de condições dignas para artistas e trabalhadores da cultura desenvolverem suas atividades.

A cultura não pode continuar dependendo apenas de editais eventuais, recursos emergenciais ou da boa vontade dos governos de ocasião. A descontinuidade das políticas públicas compromete grupos, espaços e trajetórias construídas durante décadas. Muitos artistas e coletivos seguem enfrentando a precariedade, a informalidade e a ausência de condições materiais para garantir a continuidade de seu trabalho.

Defendemos que a cultura seja reconhecida como direito da população, dimensão essencial da educação e da vida social, campo de trabalho e instrumento de preservação da memória e da diversidade cultural. Não pode ser tratada como mero adorno, entretenimento ou atividade secundária.

Por isso, consideramos necessário avançar para uma política cultural de Estado, construída com participação efetiva dos artistas, trabalhadores, coletivos e movimentos culturais, com planejamento de longo prazo, transparência, descentralização e garantia permanente de recursos públicos.

Um dos caminhos fundamentais para superar a instabilidade do financiamento cultural é instituir, por meio de legislação estadual, um percentual mínimo do Orçamento Geral do Estado destinado à cultura, assegurando recursos permanentes, protegidos contra contingenciamentos e capazes de sustentar políticas continuadas. Propomos que as candidaturas assumam o compromisso de debater e construir uma política de vinculação orçamentária que responda às reais necessidades do setor cultural potiguar.

Essa medida deve fortalecer o Sistema Estadual de Cultura e garantir investimentos para a criação, produção, circulação, formação, preservação da memória, manutenção dos equipamentos culturais e apoio aos mestres, grupos e coletivos de todas as regiões do Rio Grande do Norte.

REIVINDICAMOS DAS CANDIDATURAS AO GOVERNO DO ESTADO O COMPROMISSO COM:

1. A destinação de 2% do Orçamento Geral do Estado para as políticas culturais, garantindo recursos permanentes, suficientes e não contingenciados para o desenvolvimento da cultura em todas as regiões do Rio Grande do Norte.

2. A criação de espaços culturais e de uma política de habitação para artistas, com a destinação e transformação de prédios públicos para abrigar os movimentos culturais, escolas de artes, espaços de formação, criação e apresentações artísticas, incluindo a transformação do prédio da antiga Casa do Estudante em uma Habitação dos Artistas e a criação do Memorial das Artes – MARTE, como espaço permanente de referência para os artistas e movimentos culturais.

3. A construção e consolidação de um Sistema Estadual de Cultura, com estrutura, legislação, planejamento, financiamento e participação social, incluindo a criação de um Conselho Estadual de Políticas Culturais, órgão colegiado, deliberativo, democrático e representativo. A medida deve fortalecer a elaboração do Plano Estadual de Cultura e a participação do Rio Grande do Norte na construção democrática do Sistema Nacional de Cultura e do Plano Nacional de Cultura, com protagonismo dos movimentos culturais.

4. A garantia de eleições diretas e democráticas para o Conselho Estadual de Cultura, assegurando uma representação efetiva dos diversos segmentos, linguagens e regiões culturais do Rio Grande do Norte.

5. A descentralização dos investimentos e das ações culturais, garantindo que os recursos públicos, os equipamentos e as programações culturais alcancem todas as regiões do Estado, superando a concentração histórica na capital.

6. A valorização dos mestres e mestras da cultura popular, com políticas públicas que garantam condições materiais para sua sobrevivência e para a continuidade de seus saberes, fazeres, grupos e comunidades culturais.

7. A revisão e o aumento dos valores do Registro do Patrimônio Vivo – RPV, tanto para pessoas físicas — mestres e mestras — quanto para entidades e grupos culturais, garantindo também a regularidade dos pagamentos e evitando atrasos e interrupções.

8. A criação e manutenção de políticas permanentes de fomento à cultura, que não se limitem a editais esporádicos, assegurando continuidade para artistas, grupos, coletivos, espaços, iniciativas e projetos culturais.

9. A democratização das políticas de editais, com a participação dos movimentos culturais na elaboração dos critérios, formatos e prioridades dos editais públicos, garantindo maior transparência, acessibilidade e respeito à diversidade cultural do Estado.

10. A revisão da Lei de Incentivo à Cultura Câmara Cascudo, buscando democratizar o acesso aos seus recursos, ampliar a participação de artistas, produtores e iniciativas independentes e reduzir a concentração dos investimentos culturais.

11. A seleção e o financiamento de projetos culturais estruturantes, garantindo recursos que possibilitem não apenas a realização de eventos isolados, mas a implementação, continuidade e consolidação de iniciativas culturais de relevância para as comunidades e regiões.

12. O fortalecimento dos Pontos de Cultura, coletivos e iniciativas culturais comunitárias, reconhecendo seu papel na produção cultural, na preservação da memória e na democratização do acesso à arte.

13. A manutenção, recuperação, ampliação e democratização dos equipamentos culturais públicos, incluindo teatros, museus, bibliotecas, arquivos, memoriais, centros culturais e outros espaços de criação, formação e circulação artística.

14. A criação da Caravana da Arte, com uma programação permanente de música, dança, teatro, poesia, João Redondo e outras expressões culturais, desenvolvendo ações nas quatro regiões de Natal — Zonas Norte, Sul, Leste e Oeste — e nos municípios do interior do Estado.

15. A democratização da Feira do Livro e dos eventos literários, com incentivo à participação de editoras independentes, escritores, coletivos, movimentos literários e demais agentes da cadeia do livro, garantindo sua participação também na organização e construção das programações.

16. A integração entre cultura e educação, garantindo o acesso às diferentes linguagens artísticas, à cultura popular e ao patrimônio cultural em todos os níveis de ensino, fortalecendo projetos de formação e aproximando escolas, artistas e comunidades.

17. A implementação de políticas de formação, qualificação e valorização dos trabalhadores da cultura, contemplando artistas, técnicos, produtores, gestores, pesquisadores, educadores e demais profissionais do setor.

18. A preservação da memória e do patrimônio material e imaterial do Rio Grande do Norte, com investimentos em pesquisa, documentação, registro, salvaguarda, difusão e transmissão dos saberes entre as gerações.

19. A garantia da diversidade cultural, com políticas voltadas às expressões indígenas, negras, quilombolas, periféricas, populares, tradicionais e às diferentes linguagens e manifestações culturais existentes no Estado.

20. A transparência na aplicação dos recursos públicos destinados à cultura, com ampla divulgação dos investimentos, critérios de seleção, resultados e instrumentos de participação e controle social.

21. A realização de um amplo Encontro Estadual sobre Política Cultural, reunindo artistas, trabalhadores, mestres e mestras, coletivos, grupos, gestores, pesquisadores e movimentos culturais para discutir os desafios do setor e construir propostas para uma política cultural permanente no Rio Grande do Norte.

A arte e a cultura são produzidas diariamente pelo trabalho, pela criatividade, pela memória e pelos saberes do povo. Defendê-las significa também defender o direito de criar, preservar, transmitir, produzir, trabalhar e acessar os bens culturais.

Esta Carta é apresentada às candidaturas ao Governo do Estado como um chamado ao compromisso público com uma política cultural que enfrente as lacunas ainda existentes, reconheça a diversidade da produção potiguar e assegure recursos permanentes, participação social e condições materiais para que a cultura possa existir e se desenvolver em todo o Rio Grande do Norte.

Não queremos uma cultura dependente apenas de medidas temporárias, editais ocasionais e governos de ocasião. Defendemos uma política pública permanente, democrática, descentralizada, com orçamento garantido e participação efetiva dos próprios sujeitos que fazem a cultura acontecer.

PELA REALIZAÇÃO DE UM ENCONTRO ESTADUAL SOBRE POLÍTICA CULTURAL!

POR 2% DO ORÇAMENTO DO ESTADO PARA AS POLÍTICAS CULTURAIS!

POR POLÍTICAS PÚBLICAS QUE GARANTAM CONDIÇÕES MATERIAIS PARA OS MESTRES, ARTISTAS, TRABALHADORES, GRUPOS, COLETIVOS E MOVIMENTOS CULTURAIS!

ACADEMIA NORTE-RIO-GRANDENSE DE LITERATURA DE CORDEL – ANLIC-RN

PONTO DE MEMÓRIA ESTAÇÃO DO CORDEL

INSTITUTO PINDORAMA DE ARTE E CULTURA

SOCIEDADE DOS POETAS VIVOS E AFINS – SPVA

SLAN RIMA CENTRAL

CARTA DOS ARTISTAS E TRABALHADORES DA CULTURA DO RN


 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

O Estado me pediu perdão, mas a memória não silencia!

Por Nando Poeta

Fui oficialmente anistiado em 2013, durante a Caravana da Anistia Convergência Socialista. Ainda assim, meu processo só foi concluído no fim de 2025, atravessado por contestações, recursos e manobras burocráticas que tentaram, até o último instante, reduzir o peso da história. O pedido de perdão veio tarde. E não apaga as marcas deixadas no corpo, na vida e no caminho de quem ousou sonhar em tempos de medo.

Minha formação política começou cedo. Em 1979, ingressei no curso de Metalurgia da então Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte, hoje IFRN. Levava comigo mais que cadernos: carregava inquietação. Minha infância fora atravessada pela ditadura, quando álbuns de figurinhas estampavam, logo na primeira página, os rostos dos generais-presidentes. Médici, Geisel. Autoritarismo naturalizado em papel colorido. Guardo esses álbuns até hoje como prova de um tempo que tentou normalizar o arbítrio.

No fim dos anos 1970, troquei figurinhas pela escuta atenta das canções de protesto, pela leitura que despertava perguntas, pelas conversas sussurradas nos corredores. Recusei-me a ficar de pé, toda quinta-feira, para cantar o hino nacional como ritual vazio de obediência. Permanecer sentado era um gesto simples, quase invisível, mas profundamente político. Não era rebeldia gratuita: era resistência.

Éramos vigiados. Sempre. Olhos atentos circulavam pela escola. Um órgão do Estado fichava estudantes cujo único “crime” era pensar. Para falar da realidade brasileira, buscávamos refúgio na arquibancada do campo de futebol, durante o intervalo. Ali, longe dos arapongas, a resistência começava a ganhar forma.

Era o fim da ditadura, sob o governo Figueiredo. As ruas começavam a ferver. As greves ressurgiam desde 1978. O grito contra o regime ganhava corpo. Em 1981, na Escola Técnica, organizamos uma chapa de oposição ao Centro Cívico, controlado pela gestão. Tínhamos 16, 17 anos e uma fome imensa de futuro. Perdemos. O processo era viciado. Mas a derrota nos empurrou para algo maior: a construção de um partido, na época, enraizado na luta da classe trabalhadora.

Em 1982, já no curso de Edificações, participei das mobilizações pela meia-passagem e pelo direito à cidade. Sonhava com um estágio na Petrobras. Esperei. Insisti. Nada. Meu pai recorreu ao compadre deputado, ex-diretor da Escola. A resposta foi direta: meu nome não fora encaminhado porque eu “me envolvia em movimentos”. Até hoje me pergunto o que constava nas fichas que escreveram sobre mim.

Fui para a construção civil. Caminhava do Alecrim à Avenida Bernardo Vieira para pegar o caminhão da empresa. Almoçava feijão ralo, tripa, charque, farinha e arroz. Comida simples, digna, feita por Serafim, um funcionário da Construtora. Acompanhava mutuários na entrega das casas na Cidade do Satélite, apontava defeitos, exigia correções. Resultado: fui dispensado. Queriam silêncio. Eu oferecia dignidade.

Na empresa seguinte, em 1982, na construção do Santarém na Zona Norte de Natal, recusai-me a acompanhar operários a um comício eleitoral. No sábado, veio a demissão por “não colaborar com a empresa”. Saí sem arrependimento.

Em 1983, ingressei na UFRN, no curso de Ciências Sociais. Queria compreender as engrenagens da exploração que eu já conhecia na pele. Em 1984, vivi as Diretas Já, as greves, a Ocupação da Reitoria. Seis dias de luta intensa. Fiz parte do Comando Geral de Ocupação. História viva.

Tudo isso, cada passo meu, foi monitorado até 1990. Da Escola Técnica à universidade, da militância estudantil à vida profissional. Em 2010, solicitei meus registros ao Estado. Eles vieram. Pesados. Detalhados. Cruéis. Mostrei à minha mãe. Ela chorou. Não compreendia como um filho “tão bom” podia ter sido tratado como bandido.

Em 2013, veio a anistia oficial. O perdão, porém, seguiu sendo contestado, reduzido, burocratizado. Até nisso, a perseguição insistiu. Mas não me quebrou.

A militância nunca foi fardo. Foi escolha. Foi escola. Foi abrigo e trincheira. Chego aqui mais convicto: lutar vale a pena. Dedico esta trajetória à minha irmã, Mauricléia, minha luz e companheira de batalhas.


 


Cine Cordel: do folheto à tela, o cordel em movimento!

Por Nando Poeta

Há histórias que não nasceram para ficar quietas.
Antes de ocuparem a tela, correram o mundo em versos rimados, ditos em voz alta nas feiras, improvisados nas cantorias, impressos em folhetos passados de mão em mão. O cinema brasileiro, muitas vezes, aprendeu a contar suas histórias ouvindo o cordel.

Em um cenário marcado pela consagração massiva de filmes comerciais estrangeiros, olhar para o próprio chão torna-se um gesto político. É nessa direção que o Cine Cordel, impulsionado pelo Ponto de Memória Estação do Cordel, convida o público a deslocar o olhar e reconhecer a força dos aspectos tradicionais na construção do cinema nacional, como aponta Sylvie Debs ao revelar o diálogo profundo entre cordel e imagem em movimento.

O Cine Cordel nasce como uma série de textos e fragmentos de filmes dedicada a revelar a relação entre o cinema e as formas tradicionais de expressão artística do povo brasileiro. Em especial, a poesia cordeliana, escrita em folhetos ou improvisada nas cantorias, que ao longo de décadas inspirou não apenas temas, mas a própria linguagem do nosso cinema.

Essa aproximação não se fez apenas pelo cangaço, pela comédia pícara ou pelo drama do sertão. O encontro mais fértil aconteceu na forma de narrar: no ritmo da fala, na oralidade, na sátira social, no sagrado misturado ao profano, na palavra que denuncia, ri da dor e transforma sobrevivência em invenção.

Do poeta perseguido ao herói astuto, do julgamento celestial ao drama do retirante, o cordel ensinou ao cinema um jeito popular, político e profundamente humano de olhar o mundo. Não como curiosidade folclórica, mas como matriz estética e narrativa.

A primeira publicação da série será dedicada ao filme O Homem que Virou Suco, obra emblemática dessa travessia entre a poesia cordeliana e o cinema brasileiro, e vai ao ar nas redes da Estação do Cordel nesta terça-feira, 03 de fevereiro.

O Cine Cordel propõe um mergulho nessas travessias.
Do folheto à tela grande.
Da feira ao cinema.
Da poesia impressa à imagem em movimento.

Mais que divulgação, é gesto de memória e formação cultural. Um convite para enxergar o cinema brasileiro com outros olhos e reconhecer, em cada cena, a força da palavra do povo.

Aqui começa o caminho.
O verso já está em movimento.

#CineCordel #Cordel #CinemaBrasileiro #CulturaPopular #PoesiaDoPovo #Memória #Nordeste

Referência

DEBS, Sylvie. Cinema e cordel: jogo de espelhos. Fortaleza; São Luís: Lume Filmes; Interarte, 2015. 256 p.