segunda-feira, 2 de novembro de 2026

VEM AÍ O 10º CÍRCULO NATALENSE DO CORDEL!

De 11 a 15 de novembro de 2026
Natal/RN

Natal será palco de uma grande celebração da literatura cordeliana, reunindo poetas, escritores, cantadores, músicos, xilógrafos, pesquisadores, estudantes e amantes da poesia de todo o Brasil.

Serão cinco dias de encontros, arte e resistência, com uma programação que celebra a força da palavra e a riqueza da nossa memória cultural.

O QUE VEM POR AÍ?

Cordel na educação
Oficinas de xilogravura com Josafá de Orós, Nireuda Longobardi e Adélia Costa
Música, poesia e forró na praça
Lançamentos de livros
Caminhada histórica pelo Centro de Natal
Rodas de conversa, debates e tribunas poéticas
Apresentações artísticas, cortejos culturais, oficinas e feira de livros
Encontros com grandes nomes da literatura, da arte e da cultura brasileira

O 10º Círculo Natalense do Cordel é uma construção coletiva, movida pela arte independente e pelo compromisso com a memória, a literatura e a cultura do nosso povo.

Mais que um evento, é a celebração de uma arte que atravessa gerações, ocupa espaços, preserva histórias e transforma palavras em identidade e resistência.

Venha fazer parte dessa roda de poesia, encontro e resistência!


Realização com apoio do Edital de Fomento ao Livro, Leitura e Literatura nº 10/2026 — Categoria 1.3: Festivais, Feiras e Mostras Literárias, da Lei Aldir Blanc, por meio da Fundação José Augusto.

10º CÍRCULO NATALENSE DO CORDEL
O cordel ocupa a praça, a escola e a memória.

FAÇA SUA INSCRIÇÃO!
https://forms.gle/Pdfr4WDCXgC8R5uG8

#10CirculoNatalenseDoCordel #Cordel #CulturaPopular #LiteraturaDeCordel #NatalRN #ArteIndependente #Xilogravura #PoesiaNordestina

 

domingo, 1 de novembro de 2026

Nota Sobre o Cordel

Ponto de Memória Estação do Cordel

O voto é chave de ouro: quando a poesia se fez instrumento de resistência

Há cinquenta anos, em outubro de 1976, em plena ditadura militar-civil e empresarial, a poesia cordeliana encontrou um caminho para falar de democracia, consciência política e liberdade. O Serviço de Assistência Rural (SAR), da Arquidiocese de Natal, promoveu um concurso de cordel cujo tema era o valor do voto.

A dimensão dessa iniciativa merece ser destacada: o concurso reuniu 150 participantes, que apresentaram seus poemas de cordel. Entre eles, havia 83 agricultores, operários e professores, demonstrando que a discussão sobre o voto e a participação política ultrapassava os círculos intelectuais e alcançava trabalhadores de diferentes segmentos sociais. A poesia tornava-se, assim, um instrumento de expressão, conscientização e participação de povo.

O registro publicado no jornal O Poti, em 24 de outubro de 1976, guarda uma memória importante da resistência cultural no Rio Grande do Norte. Naquele período, quando o país vivia sob um regime autoritário, a arte também se transformava em instrumento de contestação. A poesia, que tantas vezes nasce da experiência e da sabedoria popular, assumia ali uma tarefa política: despertar consciências.

O concurso premiou dois trabalhos: o de Sebastiana Arcelino, conhecida como Bastinha, de Sítio Novo, com o cordel “O voto é chave de ouro”; e o do poeta Crispiano Neto, natural de Santo Antônio do Salto da Onça, com “O voto nem se vende nem se troca”.

Mais do que uma competição literária, aquela iniciativa representava uma forma de desobediência civil e de afirmação da resistência. Afinal, o Brasil vivia sob uma ditadura: não havia eleição direta para presidente da República nem para governador dos estados e prefeitos das capitais. A escolha dos representantes acontecia sob as regras e os controles impostos pelo regime.

Em 1974, as urnas já haviam dado sinais de insatisfação com a ditadura. No Rio Grande do Norte, o MDB conquistou três das oito cadeiras para a Câmara Federal e nove das 24 vagas da Assembleia Legislativa. Embora a ARENA tenha mantido a maioria, o resultado demonstrava o crescimento da oposição consentida e expressava uma mudança importante no sentimento de parte do eleitorado.

O SAR, ligado a um setor progressista da Igreja Católica, soube perceber aquele momento histórico. Ao propor um concurso sobre o valor do voto, abriu espaço para que poetas discutissem a política, a liberdade de escolha e a responsabilidade do eleitor. Em tempos de censura e restrições democráticas, falar de consciência eleitoral também era uma maneira de questionar a ordem estabelecida.

E os versos premiados não deixavam dúvidas sobre o recado.

Bastinha, em “O voto é chave de ouro”, colocava a honestidade e o compromisso com a comunidade acima dos interesses particulares:

O candidato honesto
Que tem mais capacidade
É aquele que enxerga
O bem da comunidade
Procura servir o povo
Na maior necessidade.

Em outra passagem, a poeta denunciava a troca de favores e a submissão política:

Vamos prestar atenção
Qual o maior merecedor
Para não sair dizendo
Aquele eu devo favor
O eleitor que faz isso
Está sendo um traidor.

E aprofundava a crítica à dependência criada pelas dádivas dos políticos:

Quanto mais se receber
Coisas que o político dão
Fica-se escravizado
No tempo de eleição
Quando devemos fazer
Toda nossa obrigação.

Crispiiano Neto, em “O voto nem se vende nem se troca”, por sua vez, fazia da consciência um princípio inegociável:

Consciência não se vende
E ninguém deve comprar
Pois não é mercadoria
Pra gente negociar
É votando consciente
Que se diz participar.

E reconhecia na política um instrumento de organização coletiva:

A política é importante
Você deve imaginar
Pois esse é único meio
Da gente se organizar
Para escolher responsáveis
Que saiba nos ajudar.

Os dois trabalhos receberam como prêmio a publicação de seus cordéis e a quantia de Cr$ 500,00 para cada autor. A moeda da época era o cruzeiro.

O mais significativo é perceber como aquelas mensagens atravessaram o tempo. Cinquenta anos depois, continuamos diante de uma questão fundamental: que valor tem o voto quando a consciência é submetida aos interesses econômicos, às promessas fáceis, ao clientelismo e às desigualdades que atravessam as disputas eleitorais?

É evidente que não estamos mais sob uma ditadura militar. Conquistamos liberdades democráticas importantes, mas isso não significa que a disputa política tenha alcançado plena igualdade de condições. Ainda convivemos com profundas desigualdades de acesso aos meios de comunicação, ao financiamento e aos espaços de participação política. As liberdades democráticas precisam ser defendidas e ampliadas permanentemente.

Por isso, reencontrar esses cordéis é também reencontrar uma parte da nossa história. Bastinha e Crispiano Neto, cada um com sua linguagem e sensibilidade, transformaram a poesia em palavra de conscientização. E os outros 148 participantes também integram essa memória coletiva, que revela a dimensão popular e social daquela experiência.

Seus versos não ficaram presos ao tempo em que foram escritos: continuam dialogando com o presente.

Afinal, o voto não é mercadoria, não é favor, não é dívida. É direito, consciência e luta.

A poesia também fez resistência! E essa memória merece ser conhecida, preservada e compartilhada.

 

Referências e fontes documentais:

 

1. Fonte jornalística histórica

O POTI. Natal, 24 de outubro de 1976. Registro jornalístico sobre o concurso de literatura de cordel promovido pelo Serviço de Assistência Rural (SAR), da Arquidiocese de Natal;

2. Acervo digital da Fundação Casa de Rui Barbosa

FUNDAÇÃO CASA DE RUI BARBOSA. Repositório Rui Barbosa de Informações Culturais (RUBI). Registro documental disponível em:

[https://rubi.casaruibarbosa.gov.br/handle/20.500.11997/14092](https://rubi.casaruibarbosa.gov.br/handle/20.500.11997/14092)


 

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

CARTA DE REIVINDICAÇÕES DOS ARTISTAS E TRABALHADORES DA CULTURA DO RIO GRANDE DO NORTE ÀS CANDIDATURAS AO GOVERNO DO ESTADO

PELA CULTURA COMO DIREITO, TRABALHO, MEMÓRIA E POLÍTICA PÚBLICA

O Rio Grande do Norte possui uma riqueza cultural construída pela contribuição dos povos originários, das populações negras, das comunidades tradicionais e dos trabalhadores e trabalhadoras que, ao longo das gerações, criaram, preservaram e reinventaram formas de expressão, saberes e práticas culturais.

São mestres e mestras da cultura popular, artistas, poetas, cordelistas, repentistas, cantadores, grupos de teatro, dança e música, brincantes, bonequeiros, artesãos, produtores, técnicos, pesquisadores, coletivos culturais, pontos de cultura e tantos outros sujeitos que mantêm viva uma produção cultural diversa em todas as regiões do Estado.

Apesar dessa riqueza, as políticas públicas de cultura ainda não respondem plenamente às demandas do movimento cultural potiguar. Persistem lacunas no financiamento, na continuidade das ações, na manutenção dos equipamentos culturais, na preservação do patrimônio, no apoio aos mestres e mestras, nos mecanismos de descentralização dos recursos e na garantia de condições dignas para artistas e trabalhadores da cultura desenvolverem suas atividades.

A cultura não pode continuar dependendo apenas de editais eventuais, recursos emergenciais ou da boa vontade dos governos de ocasião. A descontinuidade das políticas públicas compromete grupos, espaços e trajetórias construídas durante décadas. Muitos artistas e coletivos seguem enfrentando a precariedade, a informalidade e a ausência de condições materiais para garantir a continuidade de seu trabalho.

Defendemos que a cultura seja reconhecida como direito da população, dimensão essencial da educação e da vida social, campo de trabalho e instrumento de preservação da memória e da diversidade cultural. Não pode ser tratada como mero adorno, entretenimento ou atividade secundária.

Por isso, consideramos necessário avançar para uma política cultural de Estado, construída com participação efetiva dos artistas, trabalhadores, coletivos e movimentos culturais, com planejamento de longo prazo, transparência, descentralização e garantia permanente de recursos públicos.

Um dos caminhos fundamentais para superar a instabilidade do financiamento cultural é instituir, por meio de legislação estadual, um percentual mínimo do Orçamento Geral do Estado destinado à cultura, assegurando recursos permanentes, protegidos contra contingenciamentos e capazes de sustentar políticas continuadas. Propomos que as candidaturas assumam o compromisso de debater e construir uma política de vinculação orçamentária que responda às reais necessidades do setor cultural potiguar.

Essa medida deve fortalecer o Sistema Estadual de Cultura e garantir investimentos para a criação, produção, circulação, formação, preservação da memória, manutenção dos equipamentos culturais e apoio aos mestres, grupos e coletivos de todas as regiões do Rio Grande do Norte.

REIVINDICAMOS DAS CANDIDATURAS AO GOVERNO DO ESTADO O COMPROMISSO COM:

1. A destinação de 2% do Orçamento Geral do Estado para as políticas culturais, garantindo recursos permanentes, suficientes e não contingenciados para o desenvolvimento da cultura em todas as regiões do Rio Grande do Norte.

2. A criação de espaços culturais e de uma política de habitação para artistas, com a destinação e transformação de prédios públicos para abrigar os movimentos culturais, escolas de artes, espaços de formação, criação e apresentações artísticas, incluindo a transformação do prédio da antiga Casa do Estudante em uma Habitação dos Artistas e a criação do Memorial das Artes – MARTE, como espaço permanente de referência para os artistas e movimentos culturais.

3. A construção e consolidação de um Sistema Estadual de Cultura, com estrutura, legislação, planejamento, financiamento e participação social, incluindo a criação de um Conselho Estadual de Políticas Culturais, órgão colegiado, deliberativo, democrático e representativo. A medida deve fortalecer a elaboração do Plano Estadual de Cultura e a participação do Rio Grande do Norte na construção democrática do Sistema Nacional de Cultura e do Plano Nacional de Cultura, com protagonismo dos movimentos culturais.

4. A garantia de eleições diretas e democráticas para o Conselho Estadual de Cultura, assegurando uma representação efetiva dos diversos segmentos, linguagens e regiões culturais do Rio Grande do Norte.

5. A descentralização dos investimentos e das ações culturais, garantindo que os recursos públicos, os equipamentos e as programações culturais alcancem todas as regiões do Estado, superando a concentração histórica na capital.

6. A valorização dos mestres e mestras da cultura popular, com políticas públicas que garantam condições materiais para sua sobrevivência e para a continuidade de seus saberes, fazeres, grupos e comunidades culturais.

7. A revisão e o aumento dos valores do Registro do Patrimônio Vivo – RPV, tanto para pessoas físicas — mestres e mestras — quanto para entidades e grupos culturais, garantindo também a regularidade dos pagamentos e evitando atrasos e interrupções.

8. A criação e manutenção de políticas permanentes de fomento à cultura, que não se limitem a editais esporádicos, assegurando continuidade para artistas, grupos, coletivos, espaços, iniciativas e projetos culturais.

9. A democratização das políticas de editais, com a participação dos movimentos culturais na elaboração dos critérios, formatos e prioridades dos editais públicos, garantindo maior transparência, acessibilidade e respeito à diversidade cultural do Estado.

10. A revisão da Lei de Incentivo à Cultura Câmara Cascudo, buscando democratizar o acesso aos seus recursos, ampliar a participação de artistas, produtores e iniciativas independentes e reduzir a concentração dos investimentos culturais.

11. A seleção e o financiamento de projetos culturais estruturantes, garantindo recursos que possibilitem não apenas a realização de eventos isolados, mas a implementação, continuidade e consolidação de iniciativas culturais de relevância para as comunidades e regiões.

12. O fortalecimento dos Pontos de Cultura, coletivos e iniciativas culturais comunitárias, reconhecendo seu papel na produção cultural, na preservação da memória e na democratização do acesso à arte.

13. A manutenção, recuperação, ampliação e democratização dos equipamentos culturais públicos, incluindo teatros, museus, bibliotecas, arquivos, memoriais, centros culturais e outros espaços de criação, formação e circulação artística.

14. A criação da Caravana da Arte, com uma programação permanente de música, dança, teatro, poesia, João Redondo e outras expressões culturais, desenvolvendo ações nas quatro regiões de Natal — Zonas Norte, Sul, Leste e Oeste — e nos municípios do interior do Estado.

15. A democratização da Feira do Livro e dos eventos literários, com incentivo à participação de editoras independentes, escritores, coletivos, movimentos literários e demais agentes da cadeia do livro, garantindo sua participação também na organização e construção das programações.

16. A integração entre cultura e educação, garantindo o acesso às diferentes linguagens artísticas, à cultura popular e ao patrimônio cultural em todos os níveis de ensino, fortalecendo projetos de formação e aproximando escolas, artistas e comunidades.

17. A implementação de políticas de formação, qualificação e valorização dos trabalhadores da cultura, contemplando artistas, técnicos, produtores, gestores, pesquisadores, educadores e demais profissionais do setor.

18. A preservação da memória e do patrimônio material e imaterial do Rio Grande do Norte, com investimentos em pesquisa, documentação, registro, salvaguarda, difusão e transmissão dos saberes entre as gerações.

19. A garantia da diversidade cultural, com políticas voltadas às expressões indígenas, negras, quilombolas, periféricas, populares, tradicionais e às diferentes linguagens e manifestações culturais existentes no Estado.

20. A transparência na aplicação dos recursos públicos destinados à cultura, com ampla divulgação dos investimentos, critérios de seleção, resultados e instrumentos de participação e controle social.

21. A realização de um amplo Encontro Estadual sobre Política Cultural, reunindo artistas, trabalhadores, mestres e mestras, coletivos, grupos, gestores, pesquisadores e movimentos culturais para discutir os desafios do setor e construir propostas para uma política cultural permanente no Rio Grande do Norte.

A arte e a cultura são produzidas diariamente pelo trabalho, pela criatividade, pela memória e pelos saberes do povo. Defendê-las significa também defender o direito de criar, preservar, transmitir, produzir, trabalhar e acessar os bens culturais.

Esta Carta é apresentada às candidaturas ao Governo do Estado como um chamado ao compromisso público com uma política cultural que enfrente as lacunas ainda existentes, reconheça a diversidade da produção potiguar e assegure recursos permanentes, participação social e condições materiais para que a cultura possa existir e se desenvolver em todo o Rio Grande do Norte.

Não queremos uma cultura dependente apenas de medidas temporárias, editais ocasionais e governos de ocasião. Defendemos uma política pública permanente, democrática, descentralizada, com orçamento garantido e participação efetiva dos próprios sujeitos que fazem a cultura acontecer.

PELA REALIZAÇÃO DE UM ENCONTRO ESTADUAL SOBRE POLÍTICA CULTURAL!

POR 2% DO ORÇAMENTO DO ESTADO PARA AS POLÍTICAS CULTURAIS!

POR POLÍTICAS PÚBLICAS QUE GARANTAM CONDIÇÕES MATERIAIS PARA OS MESTRES, ARTISTAS, TRABALHADORES, GRUPOS, COLETIVOS E MOVIMENTOS CULTURAIS!

ACADEMIA NORTE-RIO-GRANDENSE DE LITERATURA DE CORDEL – ANLIC-RN

PONTO DE MEMÓRIA ESTAÇÃO DO CORDEL

INSTITUTO PINDORAMA DE ARTE E CULTURA

SOCIEDADE DOS POETAS VIVOS E AFINS – SPVA

SLAN RIMA CENTRAL

CARTA DOS ARTISTAS E TRABALHADORES DA CULTURA DO RN


 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

O Estado me pediu perdão, mas a memória não silencia!

Por Nando Poeta

Fui oficialmente anistiado em 2013, durante a Caravana da Anistia Convergência Socialista. Ainda assim, meu processo só foi concluído no fim de 2025, atravessado por contestações, recursos e manobras burocráticas que tentaram, até o último instante, reduzir o peso da história. O pedido de perdão veio tarde. E não apaga as marcas deixadas no corpo, na vida e no caminho de quem ousou sonhar em tempos de medo.

Minha formação política começou cedo. Em 1979, ingressei no curso de Metalurgia da então Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte, hoje IFRN. Levava comigo mais que cadernos: carregava inquietação. Minha infância fora atravessada pela ditadura, quando álbuns de figurinhas estampavam, logo na primeira página, os rostos dos generais-presidentes. Médici, Geisel. Autoritarismo naturalizado em papel colorido. Guardo esses álbuns até hoje como prova de um tempo que tentou normalizar o arbítrio.

No fim dos anos 1970, troquei figurinhas pela escuta atenta das canções de protesto, pela leitura que despertava perguntas, pelas conversas sussurradas nos corredores. Recusei-me a ficar de pé, toda quinta-feira, para cantar o hino nacional como ritual vazio de obediência. Permanecer sentado era um gesto simples, quase invisível, mas profundamente político. Não era rebeldia gratuita: era resistência.

Éramos vigiados. Sempre. Olhos atentos circulavam pela escola. Um órgão do Estado fichava estudantes cujo único “crime” era pensar. Para falar da realidade brasileira, buscávamos refúgio na arquibancada do campo de futebol, durante o intervalo. Ali, longe dos arapongas, a resistência começava a ganhar forma.

Era o fim da ditadura, sob o governo Figueiredo. As ruas começavam a ferver. As greves ressurgiam desde 1978. O grito contra o regime ganhava corpo. Em 1981, na Escola Técnica, organizamos uma chapa de oposição ao Centro Cívico, controlado pela gestão. Tínhamos 16, 17 anos e uma fome imensa de futuro. Perdemos. O processo era viciado. Mas a derrota nos empurrou para algo maior: a construção de um partido, na época, enraizado na luta da classe trabalhadora.

Em 1982, já no curso de Edificações, participei das mobilizações pela meia-passagem e pelo direito à cidade. Sonhava com um estágio na Petrobras. Esperei. Insisti. Nada. Meu pai recorreu ao compadre deputado, ex-diretor da Escola. A resposta foi direta: meu nome não fora encaminhado porque eu “me envolvia em movimentos”. Até hoje me pergunto o que constava nas fichas que escreveram sobre mim.

Fui para a construção civil. Caminhava do Alecrim à Avenida Bernardo Vieira para pegar o caminhão da empresa. Almoçava feijão ralo, tripa, charque, farinha e arroz. Comida simples, digna, feita por Serafim, um funcionário da Construtora. Acompanhava mutuários na entrega das casas na Cidade do Satélite, apontava defeitos, exigia correções. Resultado: fui dispensado. Queriam silêncio. Eu oferecia dignidade.

Na empresa seguinte, em 1982, na construção do Santarém na Zona Norte de Natal, recusai-me a acompanhar operários a um comício eleitoral. No sábado, veio a demissão por “não colaborar com a empresa”. Saí sem arrependimento.

Em 1983, ingressei na UFRN, no curso de Ciências Sociais. Queria compreender as engrenagens da exploração que eu já conhecia na pele. Em 1984, vivi as Diretas Já, as greves, a Ocupação da Reitoria. Seis dias de luta intensa. Fiz parte do Comando Geral de Ocupação. História viva.

Tudo isso, cada passo meu, foi monitorado até 1990. Da Escola Técnica à universidade, da militância estudantil à vida profissional. Em 2010, solicitei meus registros ao Estado. Eles vieram. Pesados. Detalhados. Cruéis. Mostrei à minha mãe. Ela chorou. Não compreendia como um filho “tão bom” podia ter sido tratado como bandido.

Em 2013, veio a anistia oficial. O perdão, porém, seguiu sendo contestado, reduzido, burocratizado. Até nisso, a perseguição insistiu. Mas não me quebrou.

A militância nunca foi fardo. Foi escolha. Foi escola. Foi abrigo e trincheira. Chego aqui mais convicto: lutar vale a pena. Dedico esta trajetória à minha irmã, Mauricléia, minha luz e companheira de batalhas.


 


Cine Cordel: do folheto à tela, o cordel em movimento!

Por Nando Poeta

Há histórias que não nasceram para ficar quietas.
Antes de ocuparem a tela, correram o mundo em versos rimados, ditos em voz alta nas feiras, improvisados nas cantorias, impressos em folhetos passados de mão em mão. O cinema brasileiro, muitas vezes, aprendeu a contar suas histórias ouvindo o cordel.

Em um cenário marcado pela consagração massiva de filmes comerciais estrangeiros, olhar para o próprio chão torna-se um gesto político. É nessa direção que o Cine Cordel, impulsionado pelo Ponto de Memória Estação do Cordel, convida o público a deslocar o olhar e reconhecer a força dos aspectos tradicionais na construção do cinema nacional, como aponta Sylvie Debs ao revelar o diálogo profundo entre cordel e imagem em movimento.

O Cine Cordel nasce como uma série de textos e fragmentos de filmes dedicada a revelar a relação entre o cinema e as formas tradicionais de expressão artística do povo brasileiro. Em especial, a poesia cordeliana, escrita em folhetos ou improvisada nas cantorias, que ao longo de décadas inspirou não apenas temas, mas a própria linguagem do nosso cinema.

Essa aproximação não se fez apenas pelo cangaço, pela comédia pícara ou pelo drama do sertão. O encontro mais fértil aconteceu na forma de narrar: no ritmo da fala, na oralidade, na sátira social, no sagrado misturado ao profano, na palavra que denuncia, ri da dor e transforma sobrevivência em invenção.

Do poeta perseguido ao herói astuto, do julgamento celestial ao drama do retirante, o cordel ensinou ao cinema um jeito popular, político e profundamente humano de olhar o mundo. Não como curiosidade folclórica, mas como matriz estética e narrativa.

A primeira publicação da série será dedicada ao filme O Homem que Virou Suco, obra emblemática dessa travessia entre a poesia cordeliana e o cinema brasileiro, e vai ao ar nas redes da Estação do Cordel nesta terça-feira, 03 de fevereiro.

O Cine Cordel propõe um mergulho nessas travessias.
Do folheto à tela grande.
Da feira ao cinema.
Da poesia impressa à imagem em movimento.

Mais que divulgação, é gesto de memória e formação cultural. Um convite para enxergar o cinema brasileiro com outros olhos e reconhecer, em cada cena, a força da palavra do povo.

Aqui começa o caminho.
O verso já está em movimento.

#CineCordel #Cordel #CinemaBrasileiro #CulturaPopular #PoesiaDoPovo #Memória #Nordeste

Referência

DEBS, Sylvie. Cinema e cordel: jogo de espelhos. Fortaleza; São Luís: Lume Filmes; Interarte, 2015. 256 p.

 

domingo, 9 de novembro de 2025

 


9º Círculo Natalense do Cordel

O Ponto de Memória Estação do Cordel realiza, de 13 a 15 de novembro de 2025, o 9º Círculo Natalense do Cordel, no Centro Histórico da Cidade Alta, em Natal-RN. O evento celebra os 160 anos de Leandro Gomes de Barros, o pai do cordel brasileiro, com o tema “Leandro Gomes de Barros: a permanência da poesia cordeliana na atualidade”. A programação inclui feira de cordel, mesas de ideias, lançamentos literários, cortejos culturais, saraus, shows e oficina de xilogravura com o mestre Josafá de Orós (PB).

Consolidado como um dos mais importantes encontros da cultura cordeliana potiguar, o Círculo reúne cordelistas, repentistas, educadores, artistas e o público em geral para celebrar a arte independente, a liberdade de expressão e a força da poesia nordestina. Durante três dias, a Praça Padre João Maria e espaços culturais vizinhos serão tomados por versos, rimas, xilogravuras e música popular.

As inscrições estão abertas:
🔗 Círculo: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLScU_4biUmpY4fPvYhDOAWUaIl-lb3ShErwTmo-d4FA1OTGXGQ/viewform?usp=header
🔗 Oficina de Xilogravura: https://linkdireto.co/oficina
Contato para informações:
📧 estacaodocordel@gmail.com
📞 (84) [99817-1692/98811-3695]
📱 @estacaodocordel


PROGRAMAÇÃO OFICIAL

9º CÍRCULO NATALENSE DO CORDEL

 

13 a 15 de novembro de 2025
Centro Histórico da Cidade Alta – Natal/RN
Tema Central:
Leandro Gomes de Barros: 160 anos do Pai do Cordel e a permanência da poesia cordeliana na atualidade

📅 DIA 13 • QUINTA-FEIRA

08h — Café com Poesia
📍 Estação do Cordel

09h30 — Abertura Oficial
Mesa institucional: ANLiC-RN, Academia de Trovas, SPVA, Instituto Histórico e Geográfico do RN e a Academia de Cordelista de Alagoas(AALC)

10h às 22h — Feira de Cordel na Praça

10h às 12h — Mesa de Ideias
O Boi Misterioso: ecos da escrita indígena no cordel
• Mediadora: Tonha Mota (RN)
• Palestrantes: Aderaldo Luciano (PB) e Carlos Alberto (RN)
📍 Instituto Histórico e Geográfico do RN

12h — Exposição: Xilos de Barros: homenagem a Leandro Gomes de Barros no Bardallos

13h30 — Mesa de Ideias: A presença da xilogravura nos folhetos de cordel
• Mediadora: Adélia Costa (RN)
• Palestrantes: Josafá de Orós (PB), Letícia Parenga (RN) e Alcides Sales(RN)
📍 Bardallos

15h — Entre Quatro Versos, um Universo
• Mediadora: Tereza Custódio (RN)
• Participações: Hélio Alexandre(RN), Francisco Gabriel(RN) e Marciano Medeiros(RN)

📍 Estação do Cordel

16h30 — Lançamentos Coletivos
Poemas de Quinta (Pedro César) • Se Pensamento Falasse (Hérculys França) •
Acerta o Passo • Mocoronga (Célia Bombom) • A lenda do Carro Caído(Simone Maria) • No tempo que eu era grande(Marcelus Bruce) • O oficio do historiador e da historiadora/O dia que Bandica deu pra Budega(Cláudio Wagner) • Antropormorfismo em o Cachorro dos Mortos de Leandro Gomes de Barros(Tin Tin Alves).

17h30 — O Som da Capoeira
• Grupo de Capoeira Escolar — Rodrigol

18h — Cortejo
Cordão do Boi Misterioso

18h30 — Roda de Conversa
Morte, Vida e Manguebeat: caminhos da criação e da crítica social

  • Lançamento do cordel de Adaécio Lopes

19h15 — CORDELUTAS: mulheres que andam com cordéis

20h — Show de Hérculys França: EU E OUTROS NÓS – Participação de Débora Souza e Adélia Costa

20h30 — Show: Coco na Praça com Coco da Marruá

📅 DIA 14 • SEXTA-FEIRA

09h — Roda de Cordel com as Escolas
10h às 22h — Feira de Cordel na Praça

13h30 — Mesa de Ideias
O Cordel na Trilha Potiguar: memória, cultura e resistência
• Mediadora: Geralda Efigênia (RN)
• Palestrantes: Nando Poeta (RN) e Mané Beradeiro (RN)
📍 Instituto Histórico e Geográfico do RN

15h – Cantoria
Homenagem de Felipe Pereira e Helânio Moreira a Leandro Gomes de Barros

15h30 – Mesa de Ideias
Tema: Leandro Gomes de Barros: a pedra angular do cordel brasileiro

  • Mediador: Aderaldo Luciano (PB)
  • Palestrante: Guttemberg Pereira de Farias (PB)

17h – Lançamento de Livro
Leandro Gomes de Barros e os Primórdios do Cordel Brasileiro
📍 Local: Instituto Histórico e Geográfico do RN

17h30 — Aélcio do Mamulengo na Praça

18h — Lançamento
Livro Valores Rimados: Cordéis que transformam — Filipe Borges

18h30 — Sarau na Praça
Filipe Borges • Chico de Iaiá • Cláudia Borges • Nando Poeta • Tonha Mota •
Ester Havenna • Tin Tin Alves(SP)

19h — A Arte Litero-Musical de Marconi Blanco e Jussiara Soares
Entre o Poético e o Sonoro

19h30 — Igor Gomes & Xara — Assim é o Forró

20h-22h — Show: Pé de Serra na Praça — No Ritmo da Tradição
Com Tonha Mota, João Aranha e o Bando de Fabião

📅 DIA 15 • SÁBADO

09h às 16h — Oficina de Xilogravura
• Facilitador: Josafá de Orós (PB)
📍 Estação do Cordel

10h — Mesa de Ideias
Do Repente ao Cordel: 70 anos do Congresso dos Trovadores e a construção do Congresso Brasileiro do Cordel
• Mediadora: Cláudia Borges (RN)
• Palestrantes: Maryana Damasceno(AL), e Nando Poeta (RN)
📍 Estação do Cordel

12h — Almoço com Arte – Tribuna Lítero Musical na Estação do Cordel

14h — Mesa de Ideias
Cordel Antirracista: poesia como denúncia e libertação
• Mediadora: Tonha Mota (RN)
• Palestrantes: Célia Bombom e Ana Célia (Quilombo Raça e Classe)

📍 Estação do Cordel

15h30 — Lançamento Oficial
3º Concurso da Estação do Cordel — Prêmio Goretti Gaivota

16h30 — Grupo Sexta Musical

17h30 — Da Peleja ao Microfone
Cordel, Batalha de Slam e Rap na Luta Antirracista

  • Batalha de TAG

19h30 — Show de Viola e Cordel na Praça
Marcos Teixeira & Manoel Soares


sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025


CORDEL:

A LUTA É NOSSA LIÇÃO

POR NANDO POETA

  

Foto de Leilton Lima


Senhora Governadora

És fruto do movimento.

Nesta bancada da luta

Colhesse teu pensamento.

Levou chuva, sol, poeira

Dormisse em acampamento.

 

A luta sempre foi árdua

Cada dia uma batalha.

As nossas conquistas foram

Sempre no fio da navalha.

Enfrentando governantes,

Duro igual uma muralha.

 

Os ventos sopraram forte

Querendo abalar a luta.

Com o vil Geraldo Melo

Aplicando a força bruta.

A brava categoria

Teve força na disputa.

                                                                                                                               

Você era dirigente

Da nossa categoria.

Enfrentou os governantes

E a prática da tirania.

O Sindicato com a base

Numa envolvente harmonia.

 

Nas ruas marchando firme

Pelo centro da cidade

Praça Sete de Setembro

Foi palco da liberdade

De peito aberto e unidos

Contra a força da maldade.

 

Cavalaria e soldados

Reprimindo o movimento.

A greve uma forte arma

Era o nosso instrumento.

Sem baixar nunca a cabeça

Se fazia o enfrentamento.

 

Foi bem nos anos oitenta

Que a greve ecoava forte.

No Brasil Greves Gerais

Guiando, dando o suporte,

E aqui na esquina do mundo

A luta foi dando o norte.

 

Um sindicato de luta

Forjado na união.

Com todos que habitavam

Na escola, o seu chão.

Agora eram mais fortes

Com sua unificação.

 

O Sinte erguido, guiava

Funcionários, Professores

Somando o caminho da luta

Juntos com Supervisores.

No Extraclasse estampava

A luz de Orientadores.

 

Veio José Agripino

Também Garibaldi Filho

Um sindicato na luta

Nunca deixou o seu trilho,

Conduzindo as nossas vidas

Encenou com muito brilho.

 

A luta seguindo em frente

Ecoou nas eleições.

Com os dirigentes do Sinte

Eleitos nas votações.

Junior Souto e Mineiro

Fátima ganhou corações.

 

A categoria toda

Se sentiu representada

Só que a vida real

Mostrou a carga pesada.

Seus antigos dirigentes

Ficou na encruzilhada.


As batalhas não cessaram

Seja qual for o cenário.

Veio a Vilma e a Rosalba

A luta foi o rosário.

Pela a escola democrática

E por ter justo um salário.

 

E no Governo de Robson

Não foi muito diferente.

Um setor do sindicato

Foi um defensor ardente,

Dentro daquele governo

Misturou-se com a serpente.

 

E foi nessa breve história

Que a Fátima palmilhou.

Sua carreira política

Nesse Brasil despontou

E lembra que a lei do piso

Foi ela que relatou.

 

Quando um governo negava

A pagar a lei do piso.

Dizendo não ter dinheiro

Que o governo estava liso.

Fátima dizia: - É mentira

Não pagar é prejuízo.

 

Na sua voz contundente

Argumentava bem forte:

- O piso é lei, faça valer

Não pode perder o norte.

- Pague o piso, ou pague o preço

Lutaremos até a morte.

 

Foi sempre esse o recado

Muitas vezes da tribuna.

Com sua voz afiada

Na sua mão a borduna.

Mostrando que o governo

Escondia toda fortuna.

 

Agora no Executivo

Repete essa ladainha.

Que o governo não tem grana

E nem pode sair da linha.

Pisando, esmagando o piso

Mexendo na panelinha.

 

Fátima Bezerra, se ligue

Não rasgue a lei do piso.

Atenda logo essa pauta

Ponha a mão em seu juízo.

Você foi a relatora

Agora, traz prejuízo.

 

A greve foi a lição

Que você mais propagou.

Agora no seu governo

Um prato com fel provou.

Sem o piso não tem aula

Nossa assembleia aprovou.

 

A greve tem aumentado

É a nossa fortaleza.

A categoria unida

Vencerá, com a destreza

De quem segue consciente

Com força da correnteza.

 

Não aceitamos assédio

Pois é justo o movimento.

Os celetistas só querem

Ter um mesmo tratamento..

Um terço de férias e o décimo

Atrasar é um tormento.

 

Queremos que a nossa pauta

Seja logo atendida.

O Plano do Servidor

Venha logo em seguida.

A lei de Escola integral

Que seja logo parida.

 

É urgente minha gente

Ter reforma na escola,

Algumas que são entregues

Fizeram uma meia sola.

Pra nossa população

O governo não dá bola.


  Pedimos ao nosso povo

A total compreensão.

Pois a greve que fazemos

Defende a educação.

Não queremos que ela fique

Se arrastando no chão.

 

Obs: Feito em 24 de fevereiro de 2022, atualizado em 28 de fevereiro de 2025 em Natal-RN.