O Estado me pediu perdão, mas a memória não
silencia!
Por Nando Poeta
Fui oficialmente anistiado em 2013, durante a
Caravana da Anistia Convergência Socialista. Ainda assim, meu processo só foi concluído no fim de 2025,
atravessado por contestações, recursos e manobras burocráticas que tentaram,
até o último instante, reduzir o peso da história. O pedido de perdão veio
tarde. E não apaga as marcas deixadas no corpo, na vida e no caminho de quem
ousou sonhar em tempos de medo.
Minha formação política começou cedo. Em 1979,
ingressei no curso de Metalurgia da então Escola Técnica Federal do Rio Grande
do Norte, hoje IFRN. Levava comigo mais que cadernos: carregava inquietação.
Minha infância fora atravessada pela ditadura, quando álbuns de figurinhas
estampavam, logo na primeira página, os rostos dos generais-presidentes.
Médici, Geisel. Autoritarismo naturalizado em papel colorido. Guardo esses
álbuns até hoje como prova de um tempo que tentou normalizar o arbítrio.
No fim dos anos 1970, troquei figurinhas pela
escuta atenta das canções de protesto, pela leitura que despertava perguntas,
pelas conversas sussurradas nos corredores. Recusei-me a ficar de pé, toda
quinta-feira, para cantar o hino nacional como ritual vazio de obediência.
Permanecer sentado era um gesto simples, quase invisível, mas profundamente
político. Não era rebeldia gratuita: era resistência.
Éramos vigiados. Sempre. Olhos atentos circulavam
pela escola. Um órgão do Estado fichava estudantes cujo único “crime” era
pensar. Para falar da realidade brasileira, buscávamos refúgio na arquibancada
do campo de futebol, durante o intervalo. Ali, longe dos arapongas, a
resistência começava a ganhar forma.
Era o fim da ditadura, sob o governo Figueiredo. As
ruas começavam a ferver. As greves ressurgiam desde 1978. O grito contra o
regime ganhava corpo. Em 1981, na Escola Técnica, organizamos uma chapa de
oposição ao Centro Cívico, controlado pela gestão. Tínhamos 16, 17 anos e uma
fome imensa de futuro. Perdemos. O processo era viciado. Mas a derrota nos
empurrou para algo maior: a construção de um partido, na época, enraizado na
luta da classe trabalhadora.
Em 1982, já no curso de Edificações, participei das
mobilizações pela meia-passagem e pelo direito à cidade. Sonhava com um estágio
na Petrobras. Esperei. Insisti. Nada. Meu pai recorreu ao compadre deputado,
ex-diretor da Escola. A resposta foi direta: meu nome não fora encaminhado
porque eu “me envolvia em movimentos”. Até hoje me pergunto o que constava nas
fichas que escreveram sobre mim.
Fui para a construção civil. Caminhava do Alecrim à
Avenida Bernardo Vieira para pegar o caminhão da empresa. Almoçava feijão ralo,
tripa, charque, farinha e arroz. Comida simples, digna, feita por Serafim, um
funcionário da Construtora. Acompanhava mutuários na entrega das casas na
Cidade do Satélite, apontava defeitos, exigia correções. Resultado: fui
dispensado. Queriam silêncio. Eu oferecia dignidade.
Na empresa seguinte, em 1982, na construção do Santarém
na Zona Norte de Natal, recusai-me a acompanhar operários a um comício
eleitoral. No sábado, veio a demissão por “não colaborar com a empresa”. Saí
sem arrependimento.
Em 1983, ingressei na UFRN, no curso de Ciências
Sociais. Queria compreender as engrenagens da exploração que eu já conhecia na
pele. Em 1984, vivi as Diretas Já, as greves, a Ocupação da Reitoria. Seis dias
de luta intensa. Fiz parte do Comando Geral de Ocupação. História viva.
Tudo isso, cada passo meu, foi monitorado até 1990.
Da Escola Técnica à universidade, da militância estudantil à vida profissional.
Em 2010, solicitei meus registros ao Estado. Eles vieram. Pesados. Detalhados.
Cruéis. Mostrei à minha mãe. Ela chorou. Não compreendia como um filho “tão
bom” podia ter sido tratado como bandido.
Em 2013, veio a anistia oficial. O perdão, porém, seguiu sendo contestado, reduzido, burocratizado. Até nisso, a perseguição insistiu. Mas não me quebrou.
A militância nunca foi fardo. Foi escolha. Foi
escola. Foi abrigo e trincheira. Chego aqui mais convicto: lutar vale a pena.
Dedico esta trajetória à minha irmã, Mauricléia, minha luz e companheira de
batalhas.






